BICHA EXPLODE NO AR!
André C S Masini
Certa vez, passando diante de uma banca de jornais na cidade de São Paulo, eu deparei com a seguinte manchete:
"Bicha explode no ar!"
Aquilo me pareceu tão assombroso, que não pude evitar me misturar ao bolo de pessoas paradas que liam os jornais expostos.
A manchete era um tablóide sensacionalista, já extinto, chamado Notícia Popular, mas bastavam duas linhas da matéria para entender que, obviamente, ninguém tinha "explodido no ar".
Ao lado do NP, o sóbrio Estadão tratava do mesmo fato sob o título: "Cabeleireiro ameaça a tripulação em vôo comercial." A matéria dizia: "Fulano de tal, 29 (...) sofreu uma crise nervosa no vôo tal e ameaçou perfurar uma lata de laquê, o que, segundo ele, causaria a explosão do avião (...) foi preso e depois liberado..."
À parte o incrível exemplo de como uma mesma história pode ser noticiada e contada de maneiras distintas, o caso me chamou a atenção por outro aspecto. Eu me pus a imaginar o que teria passado na cabeça das pessoas, fechadas numa lata com centenas de outras, a vários quilômetros de altura, assistindo alguém ameaçar explodir tudo com um spray de laquê...
Pareceu-me até engraçado... Até que, anos depois, eu passei por situação semelhante:
Eu tentava voltar de Fortaleza para São Paulo, por uma das recém criadas empresas aéreas econômicas...
Às duas da manhã, depois de cinco horas de atraso, as pessoas na fila para o embarque pareciam um grupo de refugiados de alguma catástrofe: abatidos, exaustos e com os nervos à flor da pele. Durante todo o tempo que esperáramos ali, não havíamos visto um único funcionário da companhia, até que de repente apareceu um homem com chapeuzinho de aviador (seria ele o próprio piloto?) e, sem dizer palavra, abriu a porta soltando a manada para disputar o embarque no tapa.
Apesar do corre-corre e do empurra-empurra, acabamos todos dentro do avião, ainda bufando de impaciência, mas ao menos aliviados por termos conseguido embarcar. Parecia que chegaríamos em casa...
A comissária (sim, havia uma) deu a famosa ordem para "colocar os encostos na posição vertical"... e foi aí que tudo começou:
De meu lugar, pude ver, pouco atrás, uma senhora lutando com a própria poltrona. Quando entendeu que a poltrona não pararia mesmo na vertical, ela ergueu-se, os olhos desvairados, e, com o avião já na pista, gritou para a comissária:
-- Pare o avião! Eu vou procurar outra cadeira! Não decole até eu dar ordem!
(Para muitos, depois de cinco horas de espera, aquilo pareceu um insulto.)
Mas a comissária fingiu não ouvir, e o avião decolou, enquanto a mulher equilibrava-se pelo corredor e sumia em direção à calda.
Lá da frente nós não vimos nada. Mas quando a mulher chegou à única outra cadeira livre do avião, e descobriu que aquela também estava quebrada... ela entrou em pânico!
Ao pousarmos na escala em Recife, ela reapareceu discursando no corredor, ordenando a todos que descessem e exigindo que o avião ficasse no solo até que se fizesse uma revisão completa.
Aos trambolhões ela saiu, e eu ouvi um funcionário na escada explicando a ela que só haveria lugar em outro vôo daí a três semanas.
Torci para que a mulher não voltasse, mas, meia hora depois, quando a porta do avião se fechava, ela reapareceu, esgueirando-se pela última fresta. Continuou berrando sobre o risco daquele vôo. Os passageiros apenas resmungaram entre dentes.
Mas aí o avião se pôs em movimento, e, como por mágica, a mulher sentou-se e aquietou-se.
Tudo acabara bem: seguíamos a caminho de casa, e a mulher se calara.
Mas aí, surpreendentemente, os outros passageiros, aqueles inofensivos cidadãos que só queriam voltar pra casa, resolveram se manifestar.
O curioso é que, enquanto a mulher esbravejava ameaçadoramente, ninguém falara nada; mas, agora que se aquietara, passavam a zombar dela, com comentários em voz alta, risadinhas maldosas, e até ficando de joelhos na poltrona para encará-la. Um jovem advogado a ridicularizava em jargão jurídico, uma adolescente a fitava e ria, parecendo estar num êxtase de alegria.
A infeliz se encolhera na poltrona e ouvia a tudo quieta, como um animal assustado.
Não que eu achasse que ela não houvesse errado, muito menos que as pessoas não devam responder por seus atos. Acho até que, houvesse a cena se prolongado, teria sido correto que a tripulação a retirasse do avião. Mas algo muito diferente é alguém se valer de uma situação como essa para, covardemente, exercer seu sadismo.
Quando o avião pousou, um homem fez um incompreensível discurso, acusando-a entre outras coisas de ser "atéia"... e todos aplaudiram histericamente...
Já era demais!
A meu lado, um distinto senhor negro, que não dera um pio a viagem toda, balançou a cabeça em desaprovação.
De algum lugar, veio a voz de um jovem homossexual:
-- Cheeega gente!
Mas não chegou.
Uma hora depois, quando a mulher pegava o táxi diante de mim, ainda havia um jovem zombando dela.
Naquela noite, a bicha explodira no ar!
A bicha da maldade humana, que serpenteia pelos subterrâneos e cloacas dos corações e espreita escondida no silêncio das trevas... apenas para vir à tona explosivamente, quando lhe dão oportunidade.
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